segunda-feira, 20 de junho de 2011

Eu sei, mas não devia


Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna. Texto acima extraído do livro "Eu sei, mas não devia". 1996, pág. 09.


Estudo do texto.
1. A autora menciona várias vezes no texto a expressão “a gente”. De quem ela está falando?
2. Os problemas mencionados no texto estão relacionados a quê?
3. Que atitudes as pessoas tomam diante das dificuldades enfrentadas?
4. Marque a alternativa que responde a seguinte frase: “Os acontecimentos citados no texto”:
a. são absolutamente extraordinários, por isso causam tantas reações entre as pessoas.
b. são absolutamente comuns e naturalmente aceitos pelas pessoas.
c. tornam-se absolutamente comuns, embora devessem ser questionados pelas pessoas.
5. Diante da aceitação pacífica de tantos problemas, qual é a posição da autora? Retire do texto palavras que comprovem sua resposta.
6. Como você entende a frase: “A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita.”?
7. Retire do texto o período que retrata um problema que aflige o brasileiro há anos: a inflação.
8. Por que as pessoas se acostumam a viver nas condiçõe4s descritas pelo texto?
9. Como você entende: “A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que de tanto se acostumar, se perde de si mesma.”?
10. No decorrer do texto, a autora fala de sucessivas perdas que vão resultando no aviltamento da qualidade de vida das pessoas. Há, entretanto, uma perda maior que todas as outras. Qual? Por que ela ocorre?
11. O texto é composto de nove parágrafos. Numere-os e, em seguida, diga em que parágrafo a autora fala sobre:
a. relação entre as pessoas;
b. custo de vida (relação: capital x trabalho);
c. condições de lazer;
d. manipulação dos meios de comunicação;
e. condições de moradia;
f. destruição do meio ambiente;
g. relações entre as nações;
h. conformismo com a filosofia de vida (viver é não viver);
i. condições de trabalho.
12. Justifique o título do texto.

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